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Conexão
Brasil
abril de 2006 |
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Religiosidade
sem religião
“Querido Osho,
Como pode o mestre ajudar o discípulo a viver a religiosidade sem
religião?
Esta
é a coisa mais simples do mundo.
O inverso é o mais
difícil: é quase impossível ser religioso e fazer parte de uma
religião organizada. Mas, apenas ser religioso, sem fazer parte
de qualquer religião é a coisa mais simples.
Você tem que entender
o que religiosidade significa para mim. Para mim, religiosidade
significa uma gratidão para com a existência. Ela lhe deu tanto
que não há como você reembolsá-la.
Ouvi
contar...
Um homem ia cometer suicídio e um mestre estava sentado à
beira do rio onde ele ia se jogar. O mestre disse: ‘Espere um
pouco! Espere! Você vai cometer suicídio?’
O homem disse, ‘Quem
é você para me impedir?’
O mestre lhe disse,
‘Eu não estou impedindo você. Na verdade, eu gostaria de vê-lo
cometendo suicídio, mas antes de fazê-lo, se você puder doar os
seus dois olhos, porque o rei deste país ficou cego e os médicos
disseram que se alguém puder doar-lhe os olhos, eles poderão ser
transplantados e o rei poderá enxergar novamente. Mas tem que ser
olhos de uma pessoa viva, não de um morto. E o que você quiser
como recompensa, como prêmio, é só dizer e será seu. Assim,
antes de suicidar, por que não fazer um pequeno negócio?’
O homem disse,
‘Quanto ele pagará?’ Ele já havia esquecido o suicídio.
As pessoas estão
sempre pensando em negócios.
O mestre disse, ‘O
quanto você pedir, é só dizer.’
Ele disse, ‘Eu sou
um pobre homem, não posso pedir muito. Dê-me uma sugestão. Eu
vou cometer suicídio.’
Então o mestre disse,
‘Pense alto. Que tal, vinte mil rúpias?’
O homem disse,
‘Vinte mil rúpias? Meu Deus, eu nunca pensei que poderia ter
vinte mil rúpias.’
Mas o mestre disse,
‘Você ainda pode pensar. Eu posso até mesmo dizer ao rei que
você precisa de vinte milhões. Tudo depende de você, pois o rei
quer os olhos e paga qualquer preço.’
O homem disse,
‘Vinte milhões? Mas então, por que eu deveria cometer suicídio?’
O mestre disse,
‘Isto é com você. Mas, viver uma vida sem os olhos, mesmo
tendo vinte milhões de rúpias, não será muito agradável.’
Já estavam a caminho
do palácio, quando o homem começou a dizer ao mestre, ‘Eu
estou pensando outra coisa.’
Ele disse, ‘Que
outra coisa? Você já subiu o seu preço de novo?’
Ele respondeu, ‘O
preço não é a questão. Eu estou pensando: só por dois olhos,
vinte milhões? E quanto às duas orelhas, o nariz, os dentes,
todo o meu corpo? Qual o preço de todo o meu corpo?’
O mestre disse, ‘Você
pode calcular, pois se são vinte milhões por apenas dois
olhos...’
O homem disse, ‘Eu não
vou vender. Eu vou para a minha casa.’ O mestre disse, ‘E
quanto ao suicídio?’
Ele disse, ‘Eu
pensava que você era um homem religioso. Você é um assassino!
Você quer que eu cometa suicídio? Agora que pela primeira vez eu
pude reconhecer o que a existência me deu, e eu não tive que
pagar nem um tostão. Estes dois olhos que têm visto todo tipo de
beleza, estas duas orelhas que têm ouvido todo tipo de música,
esta vida que tem experienciado tanta coisa... E eu nada paguei
por isto, nem mesmo disse muito obrigado. E o suicídio nada mais
é que a última reclamação, a mais feia reclamação contra a
existência: ela me deu tanto e eu estou destruindo tudo. Ao invés
de estar agradecido, eu estou traindo. Não, eu não posso cometer
suicídio e não posso vender os meus olhos, eles não têm preço.
Você pode dizer isto ao rei. Nem mesmo por todo o seu reino eu não
posso doar os meus olhos, mesmo sendo eu um mendigo.’
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Você já percebeu o quanto a existência tem dado a você?
Não, você tem isto
como certo, como se você tivesse feito por merecer, como se
tivesse sido uma conquista sua.
Você não fez por
merecer. Não foi algo que você conquistou. É um presente, é
uma bênção, é simplesmente um ato de amor da existência
ter-lhe dado tanto. E ela está pronta para lhe dar muito mais.
Você é que não está pronto para receber.
A religião o impede
de ser religioso. Ela o envia para os mosteiros, para os templos,
para as igrejas. Ela ensina você a rezar para um deus hipotético
com o qual você nunca encontrou, com o qual ninguém jamais
encontrou.
O verdadeiro templo
está por toda a sua volta, sob as estrelas, sob a verde folhagem
das árvores, ao lado do oceano. O verdadeiro templo está por
toda a volta e o verdadeiro deus nada mais é que o fenômeno vivo
e consciente dentro de você.
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Existence -
Osho Zen Tarot
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Onde houver vida,
onde houver consciência, ali está deus.
E quando você
chegar à experiência máxima de consciência, você se torna
um deus. É direito natural de todo mundo tornar-se um deus, não
adorar Deus, mas tornar-se um deus.
Todas as religiões
estão impedindo você. Elas não lhe ensinam a ser sem ambição.
Elas lhe ensinam a ambição, como se tornar virtuoso para que
consiga alcançar o paraíso. Elas não lhe ensinam a não ter
medo. Elas lhe ensinam a ter medo, pois se você não fizer
certas coisas, será lançado ao inferno e irá sofrer pela
eternidade. Todas as religiões são basicamente uma exploração
da humanidade. Elas escravizam você, elas o humilham, elas o
chamam de pecador e destroem o seu auto-respeito.
Religiosidade é uma
humilde gratidão para com a existência.
E porque a existência
tem dado tanto a você, existe um humilde auto-respeito;
humilde, não egoísta. Você não se vangloria disto.
Ela ensina-o a amar,
a estar mais vivo, a brincar mais, a celebrar mais. A sua vida
deve ser uma canção, uma dança e uma festividade.
Qual a necessidade
de pertencer a um aglomerado? Todas essas coisas são suas
experiências individuais, elas nada têm a ver com qualquer
aglomerado. Você não precisa ir a uma igreja, você não
precisa adorar um deus, você não precisa adorar um livro que
está morto e cheio de toda espécie de tolices, estupidez e
superstições.
Religiosidade é um
fenômeno absolutamente individual. Ele não é algo relacionado
a coletividade, você não vai brigar com alguém... ‘Assim,
estejam unidos.’ Os muçulmanos têm que estar unidos contra
os hindus; os hindus têm que estar unidos contra os cristãos;
os cristãos têm que estar unidos contra os judeus. Estas
coisas não são religiões. Elas são multidões insanas que
querem praticar violência em nome da religião, em nome de
Deus.
Eu tenho visto
algumas revoltas e nem posso acreditar... Pessoas muito amáveis,
de repente, se tornam como animais.
Eu conheci uma
pessoa que era um professor na mesma universidade onde eu
lecionava. Eu o tinha como uma das mais amáveis pessoas. Mas
ele era muçulmano e quando houve um levante entre muçulmanos e
hindus, eu vi aquele professor estuprando uma mulher. Eu não
pude acreditar no que vi. Eu arrastei o professor para fora e
lhe disse, ‘O que você está fazendo?’ Ele recuperou seus
sentidos, como se estivesse fazendo algo num estado de sono.
Ele disse, ‘Sinto
muito, perdoe-me. Toda a multidão estava fazendo aquilo e eu
simplesmente tornei-me parte da multidão. Eu esqueci a minha
individualidade completamente e o animal dentro de mim começou
a fazer coisas. Primeiro eu comecei a tremer e pensei - Eu não
devo fazer isto, o que eu vou fazer não é certo -. Mas o
animal interno é muito forte e está ali há muito tempo.
Quando toda a multidão começou a fazer aquilo...’
Eu tenho segurado
pessoas queimando templos, queimando mosteiros; pessoas que eu
conhecia e eu tive que puxá-las para fora e lhes perguntar ‘O
que vocês estão fazendo? Vocês conseguiriam fazer isto se
estivessem sozinhas? Se não estivesse ali uma multidão, você
conseguiria queimar este mosteiro? O que este mosteiro tem a ver
com você? Ele é uma bela peça de arquitetura. Por que você o
está destruindo? Ele não faz mal a ninguém.’
E a pessoa diz,
‘Sozinha? Não, sozinha eu não conseguiria fazer isto, mas
todo mundo está fazendo. E eu também sou um hindu e os hindus
têm que estar unidos.’
Unidos para que?
Para matar e queimar pessoas vivas?
Por milhares de
anos, as religiões nada mais têm sido senão matar, assassinar
e queimar. E toda a estratégia delas é que a multidão tem sua
própria psicologia. Simplesmente não deixe que o indivíduo
esteja separado, caso contrário você não conseguirá fazer
com que ele estupre uma mulher, queime uma casa ou mate uma
criança. Basta mantê-lo dentro da multidão e quando todo
mundo estiver fazendo alguma coisa ele começará a fazer também,
o seu animal saltará para a superfície.
Certa vez eu estava
sentado numa livraria e de repente ocorreu um levante. Do outro
lado da rua havia uma loja muito bonita cheia de relógios. E as
pessoas começaram a tirar os relógios. E um velho homem estava
gritando bem alto, ‘Isto não é correto! Se hindus e muçulmanos
estão em luta, vocês podem lutar. Mas tirar as coisas das
lojas... Eu não vejo nenhuma religião nisto.’
Eu estava na
livraria e o ouvia, mas ninguém estava ouvindo o velho homem.
Eu conhecia aquele velho homem; nós costumávamos nos encontrar
de vez em quando em nossas caminhadas matinais e conversávamos
sobre alguns assuntos. Ele era um homem muito bom e tinha uma
abordagem muito filosófica a respeito da vida. Ele era muçulmano
e era uma multidão de muçulmanos que estava destruindo uma
loja de um hindu. Quando terminaram com toda a loja, ficou
restando apenas um grande relógio de parede. Ele era muito
grande e ninguém quis levá-lo porque seria facilmente visto.
Por onde a pessoa fosse, ele seria visto. Ele teria que ser
carregado nas costas. Mesmo assim o velho homem pegou o grande
relógio.
Eu não pude
acreditar naquilo. Eu me aproximei da loja e disse, ‘Espere! O
que você está fazendo?’
Ele disse, ‘O que
mais eu poderia fazer? Eles tinham levado tudo e somente restou
este relógio. Assim, eu disse para mim mesmo, agora, o que
fazer? Eles não me ouviram. Eu tentei de tudo para salvar a
loja. Mas quando eu vi que todos os relógios já tinham sido
levados, de repente um desejo cresceu em mim - O que você está
fazendo aqui, de pé, como um tolo? Pegue este que sobrou e leve
para casa -. E eu estou indo.’
Eu disse, Você está
perfeitamente certo. Você ganhou isto. Você gritou, você fez
o que pode. Você não está roubando, eu sou testemunha. Se
surgir algum problema, você pode me chamar. Você fez o seu
trabalho, o trabalho religioso de ensinar as pessoas. Ninguém
ouviu você e o dono da loja fugiu com medo de ser morto. Agora
isto é puro ganho. Você, com sua idade avançada, desperdiçou
todo o seu dia. Eu posso ajudá-lo?’
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Sorrow - Osho Zen Tarot
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Ele disse, ‘Não
me faça sentir vergonha. Este relógio é tão grande e minha
casa é tão distante.’
Eu disse,
‘Deixe-me ajudá-lo, do contrário você, sendo um muçulmano,
pode ser pego por algum hindu. E ninguém acreditará que você
comprou este relógio, numa hora desta em que as pessoas estão
levando tudo da relojoaria.’
Ele disse, ‘Você
está certo. Então faça uma coisa: chame um táxi, se puder.
Ele é muito pesado.’
Eu disse, ‘Eu
chamarei um táxi.’ Chamei um táxi. Enquanto estávamos em pé
na beira da calçada, muitas pessoas se reuniram para ver o que
estava acontecendo. Eu disse, ‘Não há problema algum. Ele
ganhou o relógio, ele mereceu.’
Ele se sentiu tão
envergonhado quando o táxi chegou e disse, ‘Não, isto não
é correto. Ponha o relógio de volta, deixe-o no passeio.
Alguma outra pessoa irá levá-lo.’ |
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Eu disse, ‘Alguma
outra pessoa irá leva-lo, não importa quem seja. Simplesmente
sente-se no táxi e leve-o consigo.’
No dia seguinte,
quando eu o vi na praça, disse-lhe, ‘Como vai o relógio?’
Ele disse, ‘Eu não
consegui dormir por toda a noite. Ele fazia um tick-tack,
tick-tack que me lembrava, - Meu Deus, eu roubei este relógio,
contrariamente a toda minha filosofia e todos os meus ensinamentos
religiosos -. E eu estava advertindo as pessoas. Isto não é um
prêmio, isto é uma punição. E minha esposa ficou brava e
disse, ‘Você ficou velho, mas na verdade é um idiota. Enquanto
as pessoas estavam levando lindos relógios de pulso, você me
trouxe esse tick-tack. Você não consegue nem dormir. Jogue ele
fora.’ Minha esposa colocou-o na garagem e eu estou pensando de
que maneira posso devolvê-lo.’
Eu disse, ‘Esta é
uma boa idéia. Eu devo chamar um táxi? Mas, você não deve ir lá
devolvê-lo. Eu irei, senão você será pego.’
Assim, eu fui devolver
o relógio. E o homem disse, ‘Como você se envolveu nisto?’
Eu disse, ‘Esta é
uma longa história. Mas nós pudemos recuperar pelo menos um:
este grande relógio. Quanto aos outros, eu sei quem os levou, eu
estava observando. Eu posso lhe dar alguns nomes, mas será muito
difícil encontrá-los. Este aqui foi levado por um velho homem,
mas a sua esposa não conseguiu agüentar esse ‘tick-tack’.
Ele próprio viria trazê-lo de volta, mas eu lhe disse, ‘Isto
é perigoso, ainda existe uma tensão no ar.’ Assim, apenas
aceite-o de volta. Mas quando a tensão se acalmar, lembre-se que
aquele velho homem tentou de tudo, mas por fim o animal saltou à
superfície e quando ele viu que ninguém o estava ouvindo, ele
pensou, ‘Somente eu estou perdendo, todo mundo está ganhando
alguma coisa.’ Pura economia apenas.
As religiões nada
mais são que psicologia de massas, psicologia de multidão, e as
massas ainda estão em seu estado animal. Elas ainda não são
seres humanos. Existem seres humanos individuais, mas não existem
multidões que sejam humanas. As multidões imediatamente
escorregam, retornam e se tornam inconscientes.
Assim, não existe problema para o indivíduo se tornar religioso.
Você só precisa entender o que significa religiosidade:
Seja
agradecido à existência e curta a bela vida que o circunda.
Ame, porque
o amanhã não é certo.
Não adie
qualquer coisa bela para amanhã.
Viva
intensamente, viva totalmente, aqui e agora.
E não há
necessidade alguma de ser um muçulmano ou um hindu. E você
descobrirá um tremendo êxtase crescendo. É o seu paraíso.
O paraíso
não está em algum lugar, onde quer que seja. O paraíso é um
espaço dentro de você.”
OSHO
– The Osho Upanishad- Disc. 35 – pergunta n° 2
Tradução: Sw. Bodhi Champak
Copyright
© 2006 OSHO INTERNATIONAL FOUNDATION, Suiça.
Todos os direitos reservados.
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