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Conexão
Brasil
novembro
de 2007
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Meditação
A
coragem de estar só e silencioso
Querido
Osho,
Eu
sempre estou com medo de estar só, porque quando estou só, começo
a querer saber quem eu sou. Parece que se eu investigar mais
fundo, irei descobrir que eu não sou a pessoa que acreditei ser
nos últimos vinte e seis anos, mas um ser presente no momento do
nascimento e talvez também no momento anterior. Por alguma razão
isso me assusta completamente. Parece um tipo de insanidade e faz
com que eu me perca nas coisas externas a fim de me sentir mais
segura.
Osho,
quem eu sou, e por que o medo?
Surabhi, não é apenas o seu medo, é o medo de todo
mundo. Porque ninguém é aquilo que deveria ser pela própria
existência.
A sociedade, a cultura, a religião, a educação, todos têm
conspirado contra inocentes crianças.
Eles têm todo o poder – a criança é indefesa e
dependente. Assim, tudo o que querem fazer com ela, eles dão um
jeito e fazem.
Eles não permitem que criança alguma se desenvolva para o
seu destino natural.
Todo o esforço deles é para fazer dos seres humanos,
utilidades. Quem sabe, se deixarmos uma criança desenvolver por
si mesma, se ela terá ou não alguma utilidade para os interesses
velados. A sociedade não está preparada para correr esse risco.
Ela agarra a criança e começa a moldá-la em alguma coisa necessária
para a sociedade.
Sob certo sentido, ela mata a alma da criança e lhe dá
uma falsa identidade, para ela nunca ver a sua alma, o seu ser.
A falsa identidade é um substituto. Mas esse substituto é
útil apenas na mesma multidão que deu essa falsa identidade a
você. No momento em que você está só, o falso começa a se
desmontar e o que é verdadeiro e foi reprimido começa a se
expressar.
Por isso o medo de estar só.
Ninguém quer estar só. Todo mundo quer pertencer a uma
multidão – e não apenas uma multidão, mas a muitas multidões.
A pessoa pertence a uma multidão religiosa, a um partido político,
a um Rotary Club... E existem muitos outros pequenos grupos para se
pertencer também.
É preciso estar apoiado vinte e quatro horas por dia,
porque o falso, sem apoio, não consegue ficar de pé. No momento
em que estiver só, começa a sensação de uma loucura estranha.
Surabhi, é sobre isto que você está perguntando –
porque por vinte e seis anos você acreditou ser alguém, e então,
de repente, num momento de solidão, você começou a perceber que
você não era aquilo. Isso cria medo: então quem você é?
E vinte e seis anos de repressão... Levará algum tempo
para que o verdadeiro se expresse.
O intervalo entre os dois tem sido chamado pelos místicos
de ‘a noite escura da alma’ – uma expressão muito
apropriada. Você não é mais o falso, e você ainda não é o
verdadeiro. Você está no limbo, você não sabe quem você é.
Particularmente no Ocidente – e Surabhi é ocidental –
o problema é ainda mais complicado, porque eles não
desenvolveram nenhuma metodologia para descobrir o verdadeiro, o
mais cedo possível, de modo que a noite escura da alma possa ser
encurtada.
O Ocidente nada conhece a respeito de meditação.
E meditação é apenas um nome para o estar só,
silencioso, esperando pela manifestação do verdadeiro. Não é
um ato, é um relaxamento silencioso – porque qualquer coisa que
você faça tem sua origem na sua falsa personalidade. Tudo o que
você fez por vinte e seis anos teve sua origem ali; este é o seu
velho hábito.
Hábitos são duros de morrer.
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Havia um grande místico na Índia, Eknath. Ele estava
indo para uma peregrinação santa com todos os seus discípulos
– seriam uma jornada de três a seis meses.
Um homem chegou até ele, jogou-se a seus pés e disse,
‘Eu sei que não sou merecedor. Você sabe bem disso, todo
mundo me conhece. Mas eu sei que a sua compaixão é maior do
que o meu não-merecimento. Por favor, aceite-me também como um
dos membros de seu grupo que está indo para a peregrinação
santa. ‘
Eknath disse, ‘Você é um ladrão – e não apenas um
ladrão comum, mas um ladrão mestre. Você nunca foi pego e
todos sabem que você é um ladrão. Eu certamente me sentiria
bem levando você comigo, mas eu também tenho que pensar nas
outras cinqüenta pessoas que estão indo comigo. Você terá
que me fazer uma promessa – e eu não estou pedindo por nada
mais que, apenas durante aquele tempo de três a seis meses em
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que nós estivermos na peregrinação, você não roube. Depois
disso, será sua a decisão. Uma vez que nós tenhamos voltado
para casa, você estará livre de sua promessa. ‘
O homem disse, ‘Eu estou absolutamente pronto para
prometer, e eu estou imensamente agradecido pela sua compaixão.’
As outras cinqüenta pessoas ficaram desconfiadas. Confiar em um
ladrão...
Mas elas não podiam dizer coisa alguma ao Eknath. Ele
era o mestre.
A peregrinação começou e desde a primeira noite
aconteceram problemas. Na manhã seguinte havia um caos – o
casaco de alguém tinha sumido, assim como a camisa de um outro,
e também o dinheiro de outro.
E todo mundo estava gritando, ‘Onde está o meu
dinheiro?’ E todos eles foram contar ao Eknath, ‘Nós estávamos
desconfiados desde o começo em que você trouxe esse homem
consigo. Um hábito de uma vida inteira...’
Mas eles começaram a procurar e então descobriram que
as coisas não tinham sido roubadas. O dinheiro de alguém tinha
sumido, mas foi encontrado na sacola do outro. O casaco de alguém
estava faltando, mas foi encontrado na mala do outro. Tudo foi
encontrado, mas era um problema desnecessário – todas as manhãs!
E ninguém conseguia conceber –
qual poderia ser o sentido disso? E certamente não era o ladrão,
porque nada estava sendo roubado.
Na terceira noite, Eknath permaneceu acordado para ver o
que acontecia. No meio da noite, o ladrão – devido ao seu hábito
– acordava e começava a tirar as coisas de um lugar e colocar
no outro. Eknath interrompeu-o e disse, ‘O que você está
fazendo? Você se esqueceu de sua promessa?’
Ele disse, ‘Não, eu não esqueci minha promessa. E eu
não estou roubando coisa alguma, mas eu não lhe prometi que não
iria mudar as coisas de um lugar para o outro. Depois dos seis
meses eu terei que ser um ladrão novamente; isto é apenas para
praticar. E você deve entender – isto é um hábito de uma
vida inteira, e você não consegue abandoná-lo num estalar de
dedos. Dê-me um tempo. Você devia entender o meu problema também.
Por três dias eu não roubei uma simples coisa – isso é como
jejuar! Isto é apenas um substituto, eu estou me mantendo
ocupado.
‘Este é o meu horário de trabalho, no meio da noite,
assim é muito difícil para eu ficar simplesmente deitado na
cama acordado. E tantos idiotas dormindo... E eu não estou
fazendo mal a ninguém. De manhã eles encontrarão as suas
coisas.’
Eknath disse, ‘Você é um homem estranho. Você vê
que toda manhã existe um caos e uma ou duas horas são desperdiçadas
desnecessariamente para se encontrar as coisas – onde você as
colocou, de que malas elas foram tiradas. Todo mundo tem que
abrir tudo e perguntar aos outros... ‘A quem isto pertence?’
O ladrão disse, ‘Essa concessão você tem que me
fazer.’
Surabhi, vinte e seis anos de uma falsa personalidade
imposta por pessoas que você amou, que você respeitou... E
eles não estavam fazendo alguma coisa intencionalmente ruim
para você. A intenção deles era boa, apenas a consciência
deles era nula. Elas não eram pessoas conscientes – seus
pais, seus professores, seus sacerdotes, seus políticos –
elas não eram pessoas conscientes, eles eram inconscientes.
E mesmo uma boa intenção nas mãos de uma pessoa
inconsciente pode se tornar venenosa.
Assim, sempre que você está só, surge um medo
profundo, porque de repente o falso começa a desaparecer.
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E o verdadeiro precisa de um certo tempo. Você o perdeu
há vinte e seis anos. Você precisará ter alguma consideração
com o fato de que terá que fazer uma ponte sobre esse intervalo
de vinte e seis anos.
Nesse medo – de que ‘eu estou perdendo a mim mesma,
meu senso, minha sanidade, minha mente – tudo’, porque o
‘eu’ que lhe foi dado pelos outros consiste em todas essas
coisas – parece que você vai enlouquecer. Você começa
imediatamente a fazer alguma coisa simplesmente para se manter
ocupada. Se não houver pessoas, pelo menos existe alguma ação.
Assim o falso permanece ocupado e não começa a desaparecer.
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Por isso as pessoas têm a maior dificuldade nos feriados
de finais de semana. Por cinco dias elas trabalham, esperando
que no final de semana possam relaxar. Mas o final de semana é
o pior tempo em todo o mundo – mais acidentes acontecem nos
finais de semana, mais pessoas se suicidam, mais assassinatos,
mais roubos, mais estupros. Estranho... E essas pessoas estavam
ocupadas por cinco dias e não havia problema algum. Mas o final
de semana, de repente, lhes dá uma escolha, ou estar ocupado
com alguma coisa ou relaxar, mas relaxar é espantoso; a falsa
personalidade desaparece.
Mantenha-se ocupado, faça alguma coisa estúpida. As
pessoas estão correndo para as praias, para-choques colados nos
para-choques, num trânsito com filas quilométricas. E se você
lhes perguntar para onde elas estão indo, elas estão indo para
longe da multidão – e toda a multidão está indo com elas.
Elas estão indo procurar um espaço solitário e silencioso –
todas elas.
Na verdade, se elas permanecessem em casa, elas estariam
mais solitárias e silenciosas – porque todos os idiotas foram
em busca de um lugar solitário e silencioso. E eles estão
correndo como loucos, porque dois dias se acabarão logo e eles
têm que chegar lá – não pergunte aonde!
E nas praias você vê... Estão tão apinhadas de
gente, nem mesmo os shoppings estão tão lotados. E muito
estranhamente, as pessoas estão se sentindo muito à vontade,
tomando um banho de sol. Dez mil pessoas numa pequena praia
tomando um banho de sol, relaxando.
A mesma pessoa na mesma praia, sozinha não seria capaz
de relaxar. Mas, você sabe, milhares de outras pessoas estão
relaxando, todas ao redor dela. As mesmas pessoas estiveram nos
escritórios, as mesmas pessoas estiveram nas ruas, estiveram
nos shoppings, e agora as mesmas pessoas estão na praia.
A multidão é essencial para o falso ‘eu’ existir.
No momento em que ele está só, você começa a ficar
nervosa.
É aqui que se deve compreender um pouco a respeito de
meditação.
Não fique preocupada, porque aquilo que pode
desaparecer, merece desaparecer. Não faz sentido agarrar-se àquilo
– aquilo não é seu, aquilo não é você.
Quando o falso tiver ido, você é aquele ser fresco,
inocente e puro que crescerá em seu lugar.
Nenhuma outra pessoa pode responder a sua pergunta ‘Quem sou
eu?’ – Você saberá.
Todas as técnicas de meditação são uma ajuda para
destruir o falso. Elas não lhe dão o verdadeiro – o
verdadeiro não pode ser dado.
Aquilo que pode ser dado não pode ser verdadeiro.
Você já tem o verdadeiro; apenas o falso tem que ser
jogado fora.
Isso pode ser dito de uma maneira diferente: o mestre lhe
tira coisas que você de fato não tem e lhe dá aquilo que você
já tem.
Meditação é apenas uma coragem para estar só e
silenciosa.
Aos poucos, você começa a sentir uma qualidade em si
mesma, uma nova vida, uma nova beleza, uma nova inteligência
– que não é tomada de empréstimo de ninguém, que cresce
dentro de você, que tem raízes na sua existência.
E se você não for uma covarde, começará a fruir, a
florescer.
Somente o bravo, o corajoso, as pessoas que têm firmeza,
podem ser religiosas. Não os freqüentadores de igrejas –
esses são covardes. Não os hindus, não os muçulmanos, não
os cristãos – eles são contra a busca. A mesma multidão,
eles estão tentando tornar suas falsas identidades mais
consolidadas.
Você nasceu. Você veio ao mundo com vida, com consciência,
com uma tremenda sensitividade. Apenas olhe uma pequena criança
– veja os seus olhos, o frescor. Tudo aquilo foi coberto por
uma falsa personalidade.
Não há necessidade alguma de ter medo.
Você pode perder apenas aquilo que tem que ser perdido.
E é bom que perca logo – porque quanto mais tempo ficar, mais
forte aquilo se torna.
E ninguém sabe coisa alguma a respeito do amanhã.
Não morra antes de realizar o seu autêntico ser.
Somente umas poucas pessoas são afortunadas, aquelas que
viveram com ser autêntico e que morreram com ser autêntico -
porque elas sabem que a vida é eterna e que a morte é uma ficção.
Osho – Beyond Enlightenment –
capítulo 18
Tradução: Sw.
Bodhi Champak
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