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Conexão
Brasil
fevereiro
de 2008
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Por
favor, não se inspire em mim
Querido
Osho,
Você
é a minha inspiração.
Eu
ouvi você dizer que nunca teve um mestre; mas houve alguma fonte
de inspiração quando você começou a sua jornada?
"A
vida em si é o bastante.
Ver
as pessoas ao redor – cadáveres ambulantes – é inspiração
suficiente, não para ir com elas, não para seguir seus
caminhos, mas para encontrar uma pequena trilha, a sua própria,
se você quiser estar vivo.
Eu
nunca tive um mestre, e eu sou feliz por nunca ter
encontrado algum. Em minhas vidas passadas eu estive com
alguns poucos mestres vivos. Eles eram pessoas lindas, amáveis,
mas uma coisa ficou clara o tempo todo para mim – que
ninguém poderia ser uma fonte de inspiração para mim,
porque essa palavra ‘inspiração’ é perigosa.
Primeiro
é inspiração, depois se torna seguimento, depois se torna
imitação – e você acaba sendo uma cópia carbono. Não
há necessidade alguma de ser inspirado por alguém. E não
é apenas não ser necessário, é perigoso também. Apenas
observando, eu tenho visto... cada indivíduo é único. Ele
não pode seguir ninguém mais.
Ele
pode tentar – milhões tem tentado por milhares de anos.
Milhões são cristãos, milhões são hindus, milhões são
budistas. O que eles estão fazendo? A inspiração de
Goutama Buda fez milhões de pessoas budistas e agora eles
estão tentando seguir seus passos. E eles não estão
chegando a lugar algum; eles não conseguem.
Você
não é um Goutama Buda e o rastro dele não se ajusta a você,
nem os sapatos dele servem para você; você terá que
encontrar o tamanho exato de sapato que lhe sirva. Ele é
belo, mas isso não significa que você tenha que se tornar
como ele. E este é o significado da palavra ‘inspiração’.
Ela significa que você está tão influenciado que o homem
se tornou o seu ideal, que você gostaria de ser como ele.
Isso tem confundido toda a humanidade.
A
inspiração tem sido um infortúnio, não uma bênção.
Eu
gostaria que você aprendesse em toda fonte, para apreciar
todo ser singular que encontrar. Mas jamais siga alguém e
nunca tente se tornar exatamente como alguma outra pessoa; o
que não é permitido pela existência. Você somente pode
ser você mesmo.
E
isto é um fenômeno estranho: as pessoas que se tornaram
uma inspiração para milhões de outras pessoas, elas próprias
nunca se inspiraram em ninguém – mas ninguém observa
esse fato.
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Goutama
Buda nunca se inspirou em alguém, e isto é o que fez dele uma
grande fonte de inspiração. Sócrates não se inspirou em alguém,
mas isso é o que o fez tão singular.
Todas essas pessoas, as quais você considera como fontes de
inspiração, nunca foram inspiradas por outros. Isto é algo
muito fundamental para ser compreendido. Sim, elas aprenderam;
elas tentaram compreender todos os tipos de pessoas. Elas amaram
pessoas singulares, mas nenhuma para ser seguida. Elas
experimentaram ser elas mesmas.
Assim, por favor, não se inspire em mim; caso contrário
você nunca se tornará uma fonte de inspiração. Você será
apenas uma cópia carbono, você não terá a sua autêntica e
original face. Você será um hipócrita: você dirá uma coisa
e fará outra. Você mostrará a sua face em situações
diferentes com máscaras diferentes, e aos poucos você se
esquecerá qual é a sua face verdadeira; são tantas máscaras...
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Ouvi contar sobre um homem... Cem anos haviam se passado
desde que Abraão Lincoln havia morrido baleado, de modo que por
todo aquele ano foi organizada uma grande celebração em sua
homenagem por toda a América. Um homem parecia com Abraão
Lincoln; apenas uns pequenos toques aqui e ali e ele era quase
uma cópía fotográfica do Abraão Lincoln.
Ele
foi treinado para falar da maneira que Abraão Lincoln costumava
falar, com seus gestos, sua ênfase, seu sotaque, tudo, os
pequenos detalhes – mesmo a maneira dele caminhar – vinte
quatro horas por dia... E ele tinha que representar essa peça
teatral da vida de Abraão Lincoln por todo o país, indo de um
lugar a outro, o ano todo.
Ele
foi baleado e morreu muitas vezes, todas as noites em todas as
apresentações; algumas vezes, até duas vezes por dia. Aquele
foi um longo ano – ele morreu muitas vezes – e a sua
participação na peça tornou-se quase a sua segunda natureza.
E então, quando as celebrações terminavam, as pessoas ficavam
surpresas: ele deixava o palco caminhando da mesma maneira que
Abraão Lincoln costumava caminhar – ele mancava um pouco. Ele
estava mancando.
Sua
esposa lhe dizia: ‘Volte aos seus sentidos!’, porque ele
estava falando daquela mesma maneira, com aquele sotaque de cem
anos atrás. Sua esposa dizia, ‘Não prolongue a brincadeira
em demasia. Simplesmente volte ao seu eu verdadeiro e vamos para
casa.’
Ele
dizia, ‘Eu sou o meu verdadeiro eu, eu sou Abraão Lincoln.’
Continuamente por um ano ele viveu como Abraão Lincoln, ele
morreu milhares de mortes como Abraão Lincoln; ele esqueceu
completamente que ele era uma outra pessoa.
Levaram-no
a um médico. O médico conversou com ele, mas ele ainda estava
em seu papel teatral. O médico lhe disse, ‘simplesmente esqueça
essa peça teatral.’
O
homem disse, ‘que peça?’
O
médico voltou-se para a sua esposa e disse, ‘esse homem não
escutará, a não ser que ele seja baleado.’
A
familía ficou enlouquecida. Ele perdeu seu trabalho e ninguém
queria tratá-lo, pois ele não estava doente. Ele estava
simplesmente grudado a uma máscara. Um ano é um longo tempo, e
todos os dias, vinte e quatro horas por dia, ele era Abraão
Lincoln. Ser Abraão Lincoln por um ano e então, de repente,
tornar-se um ser humano comum – quem gostaria disso? Ele viu
os dias gloriosos, os dias dourados e agarrou-se firmememente a
eles.
Aquele
homem viveu alguns anos como Abraão Lincoln; ele costumava
assinar ‘Abraão Lincoln’ exatamente do mesmo jeito que Abraão
Lincoln costumava assinar. Você diria que esse homem alcançou
alguma coisa ou perdeu? Ele perdeu a si mesmo, e o que ele
ganhou foi apenas um ato numa peça teatral. Ele tornou-se
totalmente falso.
E esta é a situação de quase todos no mundo – não tão
dramática, nem tão fora de série, mas todo mundo está
representando um certo papel que lhe foi ensinado, para o qual
foi educado.
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Uma
criança nasce – ela não é cristã, nem judia, nem muçulmana
– e então nós começamos a lhe colocar uma máscara. Sua
face inocente desaparece. Ele morrerá acreditando que é cristã.
Assim, não ria daquele pobre homem que morreu acreditando ser
Abraão Lincoln, porque todo mundo está fazendo o mesmo.
Pessoas estão morrendo como hinduístas – elas não nasceram
hinduístas.
Isso sempre foi um problema permanente para mim, quando
havia censo. O recenseador vinha a mim para preencher o formulário
e quando chegava na religião eu dizia, ‘eu não tenho religião
alguma’.
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Ele ficava chocado, mas dizia, ‘você deve ter nascido
em alguma religião. Seus pais devem ser hinduístas, muçulmanos,
jainistas.’
Eu
dizia, ‘isso não faz qualquer diferença. Meu pai pode ser um
médico ou engenheiro – isso não fará de mim um médico ou
um engenheiro. Ele pode ser um hinduísta ou um muçulmano –
isso é um assunto dele. Ele não pode biologicamente transferir
sua religião para mim. Se ele não pode transferir seu
conhecimento médico para mim, como ele poderia transferir o seu
conhecimento espiritual? Isso é uma fraude e eu não quero
participar de qualquer fraude.’
As
pessoas estão sendo treinadas como atores; em todo este vasto
mundo você encontrará todas as pessoas representando papéis.
Todo mundo é educado para encenar... Belos nomes – etiquetas,
boas maneiras – mas por trás, escondido, está uma psicologia
sutil para fazê-lo esquecer a sua originalidade e absorver
algum papel que os interesses ocultos querem que você
seja.
Nunca
se inspire em alguém.
Permaneça
aberto.
Quando
você vir um belo pôr do sol, desfrute a beleza dele; quando
você vir um Buda, desfrute a beleza do homem, desfrute a
autenticidade do homem, desfrute o silêncio, a verdade que o
homem alcançou, mas nunca se torne um seguidor. Todos os
seguidores estão perdidos.
Permaneça
você mesmo – porque esse homem Goutama Buda encontrou porque
permaneceu ele mesmo. E todos esses belos nomes – Lao Tzu,
Chuang Tzu, Lieh Tzu, Bodhidharma, Nagarjuna, Pitágoras, Sócrates,
Heráclito, Epicuro – todos esses belos nomes, que têm sido
uma grande inspiração para muitas pessoas, foram eles mesmos e
nunca se inspiraram em alguém. Foi assim que eles protegeram as
suas originalidades; foi assim que eles permaneceram eles
mesmos.
Eu
estive com mestres e os amei. Mas, para mim, o próprio desejo
de ser como eles é feio. Um homem é o bastante; um segundo
como ele não irá enriquecer a existência, irá apenas
sobrecarregá-la.
Para
mim a singularidade dos indivíduos é a verdade maior.
Ame
as pessoas quando encontrá-las florescendo em alguma dimensão
verdadeira e autêntica. Mas lembre-se que elas estão
florescendo por causa da autenticidade e originalidade delas;
assim esteja atento para não cair na armadilha de segui-las.
Seja você mesmo.
A
famosa máxima de Sócrates é: ‘conheça a si mesmo’. Mas
ela deveria ser completada – ela não está completa. Antes de
‘conheça a si mesmo’, uma outra máxima é necessária,
‘seja você mesmo’; caso contrário você pode conhecer
apenas algum ator que você está fingindo ser. Conhecer a si
mesmo vem em seguida; primeiro é ser você mesmo.
Os
verdadeiros grandes mestres têm sido apenas amigos, uma mão
que ajuda, dedos apontando para a lua; eles nunca criaram uma
escravidão. Mas no momento em que eles morreram, eles deixaram
um impacto tão grande ao seu redor que as pessoas espertas –
os teólogos, os sacerdotes, os eruditos – começaram a pregar
às pessoas, ‘Sigam Goutama Buda.’
Agora
o homem está morto e ele não pode negar coisa alguma... E
essas pessoas começam a explorar o grande impacto que Buda
deixou. Agora toda a Ásia, milhões de pessoas por vinte e
cinco séculos têm seguido os passos de Goutama Buda, mas nem
um simples Goutama Buda foi criado. Isso é prova bastante: dois
mil anos e nem um simples Jesus novamente; três mil anos e nem
um simples Moisés novamente.
A
existência nunca repete.
A
história se repete porque a história pertence ao inconsciente
coletivo.
A
existência nunca repete a si mesma. Ela é muito criativa e
muito inventiva. E isso é bom; caso contrário, embora Goutama
Buda seja um belo homem, se houvesse milhares de Goutama Buda
por aí – se em qualquer lugar que você fosse, encontrasse um
Goutama Buda, em todos os restaurantes – você iria ficar
realmente entediado e cansado. Isso iria destruir toda a beleza
do homem. É bom que a existência nunca repita. Ela só cria um
de cada tipo, assim ele sempre permanece raro.
Você
também é um de um tipo. Você apenas tem que desabrochar,
abrir suas pétalas e liberar a sua fragrância. “
Osho
– Beyond Psychology - Cap. 5 – Pergunta 2
Tradução:
Sw. Bodhi Champak
Copyright
© 2006 OSHO INTERNATIONAL FOUNDATION, Suiça.
Todos
os direitos reservados
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