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Conexão
Brasil
maio
de 2008
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O
ego e o desejo
Querido Osho,
O
que eu quero?
“Krishna, ninguém sabe exatamente o que quer
porque ninguém está consciente nem mesmo de quem é. A
questão do querer é secundária, a questão básica é:
quem é você? A partir disso, as coisas poderão ser
resolvidas – quais são seus desejos, suas vontades, suas
ambições.
Se você é um ego, então naturalmente você quer
dinheiro, poder, prestígio, quer lutar com outras pessoas,
você será competitivo – ambição significa competição.
Você estará continuamente pisando na garganta dos outros e
eles estarão continuamente pisando na sua. Então a vida se
torna aquilo que Charles Darwin disse: a sobrevivência dos
mais aptos. Na verdade o uso que ele faz da expressão
“os mais aptos” não é correto. Na verdade, o que
ele chama de mais apto, é o mais esperto, o mais
animalesco, o mais inflexível, o mais estúpido, o mais
feio. Charles Darwin não diria que Buddha é o mais apto, ou Jesus, ou Sócrates. Essas pessoas seriam
mortas facilmente e aqueles que os tivessem matado iriam
sobreviver. Jesus não conseguiria sobreviver. Certamente,
de acordo com Darwin, Jesus não é a pessoa mais apta.
Poncios Pilatos é muito mais apto, está mais no
caminho certo. Sócrates não era o mais apto, mas as
pessoas que o envenenaram, que o condenaram à morte, eram.
O uso que ele faz da expressão ‘o mais apto’ é
muito infeliz.
Se você está vivendo no ego, Krishna, então a sua
vida será uma luta; ela será violenta e agressiva. Você
criará miséria para os outros e para si mesmo, porque a
vida de conflito não consegue ser nada além disso. Assim,
tudo depende de você, de quem você é. Se você está no
ego, ainda pensando em si em termos de ego, então você terá
uma certa qualidade fétida. Mas, se você chegou a
compreender que você não é o ego, então a sua vida terá
uma fragrância. Se você não conhece a si mesmo, você está
vivendo na inconsciência, e uma vida de inconsciência só
pode ser uma vida de equívocos. Você pode ouvir Buda, você
pode me ouvir, você pode ouvir Jesus, mas você interpretará
de acordo com a sua própria inconsciência – você
interpretará mal.
O cristianismo é a má interpretação de Jesus,
assim como o budismo é a má interpretação de Buda, assim
como o jainismo é a má interpretação de Mahavira. Todas
essas religiões são interpretações errôneas, distorções,
porque as pessoas que seguem Buda, Mahavira, Krishna, são
pessoas comuns sem consciência. O que elas fazem é
preservar os escritos e matar o espírito.
Um filósofo estava caminhando ao redor de um parque
e notou um homem sentado em posição de lótus, com os
olhos abertos olhando para o chão. O filósofo viu que o
homem estava totalmente absorvido em seu olhar fixo ao chão.
Depois de observá-lo por um longo tempo, o filósofo não
mais resistiu e foi até o estranho camarada perguntando,
‘O que você está procurando? O que está fazendo?’
O homem respondeu sem deslocar o
seu olhar fixo, ‘Eu estou seguindo a tradição Zen de
sentar silenciosamente, nada fazer e então a primavera vem
e a grama cresce por si mesma. Eu estou observando a grama
crescer, mas ela ainda não cresceu coisa alguma.’
Não é preciso observar a grama crescer – mas isso
é o que sempre acontece. Jesus diz uma coisa e as pessoas
escutam, mas elas escutam apenas as palavras e dão àquelas
palavras os seus significados.
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Uma mãe levou seu
filhinho ao psiquiatra e por mais de três horas ela lhe contou
toda a história de seu filho. O psiquiatra estava ficando
cansado, cheio, mas a mulher estava tão absorvida na sua fala
que nem mesmo lhe deu oportunidade de impedi-la. Uma frase
seguia a outra sem qualquer intervalo.
Finalmente
o psiquiatra teve que dizer,’Por favor, pare agora! Deixe-me
perguntar algo ao seu filho!’
E
ele perguntou ao filho, ‘Sua mãe está reclamando que você não
ouve o que ela lhe diz. Você tem alguma dificuldade de audição?’
O
filho disse, ‘Não. Eu não tenho dificuldade de audição –
os meus ouvidos estão perfeitamente bem – mas no que se
refere a escutar, você pode julgar por si mesmo. Você consegue
escutar a minha mãe? Ouvir eu posso: eu tenho que ouvir. Eu
estava observando-o – você estava incomodado. Não
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há como não ouvir, mas escutar – pelo menos eu sou livre para
escutar ou não.
Se eu escuto ou não, é uma questão minha. Se ela grita comigo,
ouvir é natural, mas escutar é uma questão totalmente
diferente.’
Você ouviu, mas você não
escutou, e todo tipo de distorção se juntou ao redor. As pessoas
seguem repetindo aquelas palavras sem qualquer idéia do que
elas estão repetindo.
Você me pergunta, Krishna, ‘O que eu quero?’ Eu é
que devo lhe perguntar, ao invés de você me perguntar, porque depende de onde você está. Se você estiver identificado
com o corpo, então o seu querer será diferente; então comida
e sexo serão suas únicas vontades, seus únicos desejos. Esses
são dois desejos animais, os mais baixos. Eu não os estou
condenando ao chamá-los de mais baixos, eu não os estou
avaliando. Lembre-se, eu estou apenas afirmando um fato: o mais
baixo degrau da escada. Mas se você estiver identificado com a
mente, os seus desejos serão diferentes: música, dança,
poesia, e depois existem mil coisas.
O
corpo é muito limitado; ele tem uma polaridade simples: comida
e sexo. Ele se move como um pêndulo entre esses dois, comida e
sexo, nada mais existe para ele. Mas se você está identificado
com a mente, então ela tem muitas dimensões. Você pode
estar interessado em filosofia, em ciência, em religião –
você pode estar interessado em muitas coisas que consegue
imaginar.
Se
você estiver identificado com o coração, então os seus
desejos serão de uma natureza ainda mais elevada, mais do que a
mente. Você se tornará mais estético, mais sensitivo, mais
alerta, mais amoroso.
A
mente é agressiva, o coração é receptivo.
A
mente é masculina, o coração é feminino.
A
mente é lógica, o coração é amor.
Assim,
depende de onde você está ligado: no corpo, na mente ou no
coração. Esses são os três mais importantes locais nos quais
a pessoa pode funcionar. Mas também existe um quarto local em
você; no oriente ele é chamado de turya. Turya
simplesmente significa o quarto, o transcendental. Se você está
consciente de sua transcendentalidade, então todos os desejos
desaparecem. Então a pessoa apenas é, sem qualquer
desejo, sem nada para ser pedido, para ser atendido. Não existe
futuro ou passado. Então a pessoa vive neste momento
completamente satisfeita, realizada. No quarto, o seu lótus de
mil-pétalas desabrocha; você se torna divino.
Você
está perguntando, Krishna, ‘O que eu quero?’ Isso
simplesmente mostra que você nem mesmo sabe onde está, onde
você está ligado. Você terá que investigar dentro de si
mesmo – e isso não é muito difícil. Se é comida e sexo que
toma a maior parte de você, então eli é onde você está
identificado; se é algo que diz respeito ao pensar, então é a
mente; se diz respeito a sentimentos, então é o coração. E,
naturalmente, Krishna, não pode ser o quarto; senão a pergunta
nunca teria surgido.
Assim,
ao invés de responder a você, eu gostaria de lhe perguntar
onde você está. Investigue.
Eu
devo lhe perguntar, ‘Onde você está? Qual o tipo de
identificação? Onde você está ligado?’ Somente então as
coisas podem ficar claras – e isso não é difícil. Mas
acontece muitas vezes das pessoas formularem belas perguntas,
particularmente os indianos, Krishna. Elas podem estar ligadas
ao centro sexual delas, mas elas perguntam a respeito do samadhi.
Elas perguntam, ‘O que é nirvikalpa samadhi, onde
todos os pensamentos desaparecem, aquela consciência sem
pensamentos? O que é isso? O que é nirbeef samadhi, o
sem semente, onde mesmo as sementes para qualquer futuro estão
completamente queimadas? Qual é o estado supremo onde não se
necessita de retorno à terra, ao útero, as vida novamente?’
Essas são apenas perguntas tolas que eles estão formulando;
eles não estão formulando as perguntas deles. Eles não estão
preocupados com a verdadeira situação deles. Eles estão
formulando belas perguntas, metafísicas, esotéricas, para
mostrar que eles são seres da mais alta qualidade, que eles são
eruditos, que eles conhecem as escrituras, que eles são
buscadores, que eles não são pessoas comuns, eles são
extraordinários, religiosos. Isto está conduzindo os indianos
a uma bagunça cada vez maior.
É
sempre bom perguntar algo que seja relevante para você ao invés
de perguntar algo que não lhe diz respeito.As pessoas me
perguntam se Deus existe ou não, e elas nem mesmo sabem se elas
existem ou não.
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Há poucos dias, Divakar Bharti, um outro indiano,
perguntou-me, ‘Por que eu estou aqui?’
Divakar,
você está realmente aqui? Pergunte a si mesmo, você está
realmentre aqui? Eu não acho que você esteja aqui.
Fisicamente, é claro que você está aqui, mas espiritualmente,
na verdade, você não está aqui. A não ser que você abandone
essa idéia de ser um indiano, de ser um hindu, você não
conseguirá estar aqui, você não conseguirá ser parte da
minha comuna. Você tem carregado todos os tipos de tolices
dentro de si, e ainda está agarrado a elas.
Krishna, é sempre bom formular perguntas sobre
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questões
que existem de fato, porque elas podem
ser de alguma ajuda para você. Se você estiver sofrendo de um
resfriado comum e for ao médico perguntando sobre câncer...
pois como um homem como você pode sofrer de uma coisa usual
como um resfriado comum...? Todas as pessoas ordinárias sofrem
de resfriado comum, por isso que ele é chamado de resfriado
comum. Mas você é uma pessoa fora do comum – você não é
nenhum Tom, Harry ou Dick. Você é tão especial que você tem
que sofrer de alguma coisa muito especial; assim você pergunta
sobre o câncer. E se o médico ajudá-lo a curar o câncer, você
vai ter mais problemas – aquele tratamento não vai ser
adequado para você de maneira alguma. Ele vai criar mais
complicações em você porque aqueles remédios podem matá-lo,
pois nada existe para a ação deles; não existe câncer em você
e eles não podem ser úteis para um resfriado comum.
Na
verdade, para um resfriado comum, não existe medicação. Se
você tomar remédio, o resfriado comum desaparece em sete dias;
se você não tomar remédio, ele desaparece em uma semana! Na
verdade, ele é tão comum que a ciência médica não se
preocupa com ele. Quem vai cuidar de uma coisa tão pequena? As
pessoas se preocupam com a ida à lua. Quem se preocupa com
pequenas questões como um resfriado comum, ou o vazamento de
uma caneta-tinteiro? As canetas-tinteiro ainda vazam! As pessoas
já chegaram à lua, mas ainda não foram capazes de fazer uma
caneta-tinteiro com cem por cento de garantia de que não vai
vazar.
Simplesmente
olhe para dentro de si mesmo, Krishna. Onde exatamente está o
seu problema?
Um general visitando um hospital de campanha perguntou a
um dos soldados carregados na maca, ‘O que está errado com
você?’
‘Senhor,’
respondeu o soldado, ‘Eu tive furúnculos.’
‘Qual
tratamento você teve?’
‘Eles
me esfregaram com tintura de iodo, senhor.’
‘E
isso ajudou?’ perguntou o general.
“Sim,
senhor!’ respondeu o soldado.
Em
seguida, o general dirigiu-se ao soldado da outra cama e
descobriu que o sujeito tem hemorróidas. Ele também foi
esfregado com tintura de iodo; isso ajudou e ele não teve
outras demandas. O general perguntou então ao terceiro soldado,
‘O que está errado com você?’
‘Senhor,
eu tive as amigdalas inchadas. Esfregaram-me tintura de iodo e,
sim, isso ajudou.’
‘Algo
mais você gostaria?’ perguntou o preocupado general.
‘Sim,
senhor!’ respondeu o soldado. ‘Eu gostaria de ter sido o
primeiro a ser esfregado com a tintura.’
Primeiro você tem que ver a sua situação, onde você
está; somente então você poderá dizer o que você quer. Se
você estiver sendo esfregado com tintura de iodo depois
daqueles dois camaradas – um que tinha furúnculos e o outro
que tinha hemorróidas – e você está sofrendo apenas com
amigdalas inchadas, então o problema está claro!
Investigue,
olhe para o lugar exato onde você está. No que me diz
respeito, todo desejo é completo desperdício, todo querer é
errado. Mas se você está identificado com o corpo, eu não
posso dizer isso para você, porque isso estará muito longe do
seu alcance. Se você está identificado com o corpo, eu lhe
direi, mude um pouco para desejos mais elevados, os desejos da
mente, e depois um pouco mais alto, para os desejos do coração,
e depois finalmente ao estado sem desejos.
Desejo
algum jamais será satisfeito. Esta é a diferença entre a
abordagem científica e a abordagem religiosa. A ciência tenta
satisfazer os seus desejos e, naturalmente, a ciência tem sido
bem sucedida ao fazer muitas coisas, mas o homem permanece na
mesma miséria. A religião tenta acordá-lo para a grande
compreensão para que você possa ver que todos os desejos
intrinsecamente não conseguem ser satisfeitos.
É
preciso ir além de todos os desejos e somente assim haverá
contentamento. Contentamento não é o fim de um desejo,
contentamento não é a satisfação do desejo; porque o desejo
não pode ser satisfeito. Com o tempo, quando você chegar à
satisfação do seu desejo, irá descobrir que mil e um outros
desejos surgiram. Cada desejo se ramifica em muitos desejos
novos. E isso acontecerá repetidas vezes e toda a sua vida será
desperdiçada.
Aqueles
que sabem, aqueles que vêem – os budas, os despertos –
todos concordam em um ponto. Isso não é uma coisa filosófica,
é factual, o fato do mundo mais interior: o contentamento
acontece quando todos os desejos tiverem sido abandonados. É
com a ausência de desejos que o contentamento surge dentro de
você. – na ausência. Na verdade, a própria falta de desejos
é contentamento, é preenchimento, é gozo, é florescimento.
Krishna,
mova-se dos desejos mais baixos para os desejos mais elevados,
dos desejos brutos para os desejos mais sutis, e depois para o
mais sutil, porque é fácil o pulo do mais sutil para o não-desejo,
para o estado sem desejo. O estado sem desejo é nirvana.
Nirvana
tem dois significados. É uma das mais belas palavras; idioma
algum pode orgulhar-se dessa palavra. Ela tem dois significados,
mas esses dois significados são como dois lados de uma mesma
moeda. Um significado é a cessação do ego e o outro
significado é a cessação de todos os desejos. Isso acontece
simultaneamente. O ego e os desejos estão intrinsecamente
juntos, eles estão inseparavelmente juntos. No momento em que o
ego morre, os desejos desaparecem, ou vice-versa: no momento em
que os desejos são transcendidos, o ego é transcendido. E ser
sem desejos, ser sem ego, é conhecer a felicidade suprema, é
conhecer o êxtase eterno.
Krishna,
sannyas é isso: a busca pelo êxtase eterno, a qual começa mas
nunca termina.
OSHO – Come, Come, Yet Again Come - Cap. 4 – Pergunta
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Tradução:
Sw. Bodhi Champak
Copyright
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Todos
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